Pianista e professora, nasceu em 1938. Grande divulgadora de música de compositores portugueses (especialmente de Fernando Lopes-Graça e Constança Capdeville), optou por tocar em conjunto em vez de uma carreira como concertista e foi grande impulsionadora da prática de música de câmara em Portugal. Criou, na década de 1970, um duo com a violetista Ana Bela Chaves e, em 1980, o Opus Ensemble, o mais internacional e aclamado grupo de música de câmara português. Em Novembro de 2008, reformou-se da Escola Superior de Música de Lisboa mas quer continuar a leccionar e a dar concertos.
Excertos da entrevista à Vogue:
Sempre se ouviu música portuguesa lá em casa: aos seis anos comecei a tocar coisas portuguesas. Em todos os programas que eu toquei na Alemanha (onde se especializou, entre 1957-59, depois de acabar o Curso Superior de Piano no Conservatório Nacional), interpretei sempre obras portuguesas. Levei para a Alemanha muita coisa do Croner Vasconcelos, do Armando Fernandes, até do Ivo Cruz, do Sousa Carvalho, do Carlos Seixas e do Lopes-Graça, naturalmente, já nessa altura. E quando comecei com o Opus Ensemble e, antes disso, o duo antes com a Ana Bela Chaves (violetista), começámos logo a tocar coisas portuguesas. Nos meus concertos, toco sempre música portuguesa excepto naqueles preenchidos só com Piazzolla. Houve um pianista argentino, muito bom, que quando ouviu o meu disco (publicado originalmente em vinil em 1987, depois em CD em 1996, actualmente esgotado) chegou à conclusão de que o Piazzolla fazia muito boa música.
Na Escola Superior de Música de Lisboa (ESML) alunos de outros professores pedem para trabalhar comigo coisas portuguesas porque alguns professores não estão muito para aí virados – e é uma pena. Tivemos pianistas muito bons mas alguns não tocaram música portuguesa – a Helena Costa tocou muita música portuguesa, sobretudo de compositores do Norte e do Lopes-Graça, a Nella Maissa também. Há algumas décadas tocava-se bastante mais, depois houve uma altura em que se tocou pouco – foi quando eu comecei a dedicar-me à obra do Graça, sobretudo nos anos 70, e fiz bastantes coisas. Sempre que tenho alunos com capacidade e gosto, tenho divulgado sobretudo música de conjunto e de compositores actuais – porque há gente a compor muito bem, jovens músicos.
Eu tive uma grande impulsionadora, a Constança Capdeville, não só como compositora mas também como criadora. Deu-me a volta à cabeça, completamente, sobretudo a nível interpretativo, a nível de palco, a nível físico da música. A música tem muito de gestual. Ela limpou-me os ouvidos de preconceitos, porque o pianista sempre entrou de perfil e saiu de perfil e toca de perfil, mal olha para as pessoas e vai-se embora. Deu-me uma dimensão teatral, o que me fez muitoo bem, deu-me esta naturalidade de entrar num palco e falar com as pessoas e explicar as coisas e estar à vontade. A Constança caiu de outra galáxia e esteve cá pouco tempo. A música portuguesa não estava preparada para ela, agora é que falam dela, alunos dos alunos, “o que fazia a Constança”. Mas é preciso que se tente reavivar os espectáculos dela, que eram maravilhosos. Tinham uma luminosidade e uma variedade, com a música no centro… não era só movimento, da música é que saía o movimento.
O Opus Ensemble tem sido fundamental para me abrir horizontes. Como disse o Alejandro, é uma caixa de ressonância da música portuguesa pelo mundo inteiro. Por todo o lado onde andámos, sempre tocámos música portuguesa, mesmo nos discos. Começou antes de 80, ainda sem ter nome, Anabela Chaves, Bruno Pizzamiglio, Alejandro Erlich-Oliva e eu. Pedimos a compositores (não só a portugueses) obras e temos um programa enorme, algumas coisas ainda nem estreámos. Temos concertos marcados para Março, Abril e Maio de 2009. É difícil encontrar datas, por alguns de nós serem músicos de orquestra.
Eu já fazia no Conservatório Nacional, não oficialmente, classe de música da câmara, e quando começou na ESML tive inicialmente poucos alunos e formei uma classe especial, com dois clarinetistas e um oboísta. Chamei pianistas do Conservatório que foram ajudar, um deles a Gabriela Canavilhas, que, segundo me disse, fui eu que lhe injectei o bichinho da música de câmara – que me vem desde a Alemanha. A primeira carta que escrevi ao meu professor da Alemanha, quando regressei a Lisboa, foi a dizer que estava numa classe de música de câmara a fazer umas sonatas de Brahms para violoncelo e piano. Ele telefonou à minha mãe e disse: perdemos a Maria Olga como pianista solista, ela agora começa a ter o gosto da música de câmara e não a vai largar. E é verdade. Foi uma opção mas tive a sorte de encontrar pessoas com quem se consegue fazer música em conjunto. Não é nada fácil. É uma união estranha mas muito íntima. As pessoas têm que encontrar-se no acto de fazer música e às vezes ceder um bocadinho perante a força da música, que é o mais importante.
Livro:
“Olga Prats – Um Piano Singular”. Biografia resultante de conversas com o compositor Sérgio Azevedo. Ed. Bizâncio, 2007.
Discografia:
Olga Prats – “Piano Singular”, CD, ed. Trem Azul, 2008
“António Victorino d’Almeida – Música de Câmara”. Int. Olga Prats, Irene Lima, Ana Bela Chaves (viola d’arco) e outros.CD triplo, ed. Numérica, 2003.
Fernando Lopes-Graça: Álbum do Jovem Pianista, Op. 115, Mornas Coboverdianas, op. 206, In Memoriam Béla Bartók, Op. 126 – Suite nº 8. Int. Olga Prats (piano). Ed. PortugalSom/ Strauss, 2001.
“Constança Capdeville”: “Amen Para uma Ausência”, “Caixinha de Música”, “La Prose du Transibérien et de la Petite Jeanne de France”, “Valse”, “Visions d’Enfant”, “O Natal do Anjinho Dorminhoco”, “… Vocem mean (Ucello)”. Int. Olga Prats (piano); Luís Madureira (tenor); Manuel Cintra (recitante), Nuno Vieira de Almeida (piano); Pedro Wallenstein (contrabaixo); Schola Cantorum Olisiponensis, Hugo Mendes (violino), Susana Nogueira (violino), Susana Cordeiro (violino), Tiago Ribeiro (violoncelo), dir. Ilka Leão. Ed. Miso Music, 1997
Luiz Costa – “Música de Câmara”. Sonata para violoncelo e piano, Op. 11; Sonatina para viola e piano, Op. 19; Trio para piano, violino e violoncelo, em dó menor. Int. Olga Prats (piano), Ana Bela Chaves (viola) e outros. Ed. Numérica, 1995.
Fernando Lopes Graça: Sonata nº 5, op. 204, Ao Fio dos Anos e das Horas, op. 212. Int. Olga Prats (piano). Ed. PortugalSom/ Strauss, 1994
Discografia com o Opus Ensemble:
“Opus Ensemble – 2007”. Fernando Lopes-Graça (“Geórgicas”), António Victorino d’Almeida (“De Profundis – À Memória de Bruno Pizzamiglio, Op. 130”), Franz Joseph Haydn, Ludwig van Beethoven. Ed. Numérica, 2007.
“Opus Ensemble Plays Contemporary Portuguese Music”. António Victorino d’Almeida (“Rock and Roll”), Alejandro Erlich-Oliva (“Oito Estampas Portuguesas”), Clotilde Rosa (“Contornos”), Eurico Carrapatoso (“Sete Epigramas a Francisco Lacerda”), Laurent Filipe (“In Memoriam”), Sérgio Azevedo (“Flow My Tears”, “Ricordo”). Int. Opus Ensemble. Ed. PortugalSom/Strauss, 2001.
“Opus Ensemble – 94”. António Victorino d’Almeida (“Três Andamentos à Procura de Um Quarteto”), Erik Satie, Maurice Ohana, Ludwig van Beethoven, Leopold Mozart. Int. Opus Ensemble. Ed. Numérica, 1993.
